Constato a incredulidade com que a maioria das pessoas lê esta notícia. Não sei se a mesma corresponde à verdade ou não. Sei, isso sim, que pode vir a ser verdade em qualquer ponto do interior do país. Este interior que muitos portugueses desconhecem. O interior não é nenhuma terra de ninguém. Ainda não. No interior onde vivo, no interior que conheço há muita gente idosa. Muita gente isolada. E quando digo isolada, não estou apenas a falar de estradas (ou da falta delas). Há pessoas para quem o 112 é um número estranho. Há pessoas para quem quase não faz sentido saber o nome da rua onde moram, pois se moram ali perto do tio Xico junto a não sei o quê, isso deveria ser sabido por todos. Há pessoas que moram em ruas sem nome, em Estradas Nacionais e em lugares que apenas os vizinhos reconhecem pois não correspondem ao nome oficial. São lugares onde sempre viveram mas que não estão referenciados em nenhum mapa nem podem ser reconhecidos por nenhum GPS. E essas pessoas têm dificuldade em explicar isto. E, claro, que não se pode pedir ao INEM que o entenda. Se calhar, tudo isto poderá parecer muito estranho para a maioria, mas é uma realidade. Pensarão que seriam situações fáceis de resolver, que dar indicações por telefone a alguém que não se conhece é a coisa mais simples do mundo… Não exijam mais a esta gente. Já lhes basta a resignação a que se entregaram. Gente que, muitas vezes, não sabe descrever onde dói, porque não sabe, porque não consegue. Pessoas que lhes dói tudo, porque lhes dói a alma. Não venham dizer que isto é o país real ou o país profundo. Não! Isto é Portugal.